segunda-feira, 16 de julho de 2012

O PÉ DE MANACÁ

Meia noite, me viro de um lado e outro, mas o sono não vem. A casa está no mais completo silêncio, lá fora sopra um vento forte, o barulho nas árvores, soa como um chicote cortando o ar, a chaminé da lareira faz um rodopio barulhento, parece que geme, como se estivesse a reclamar dos castigos . Os cachorros latem ferozmente, como se estranhos passassem na rua, aguço meus ouvidos, apenas o barulho assustador do vento, do resto, apenas silêncio.
Me acomodo, me aconchego ao corpo do meu marido,  dessa forma a me esconder de algo que não vejo, apenas escuto. Nesse momento olho pelas frestas da janela o bailado dos galhos pintam figuras estranhas, iluminadas pela luz da rua.
Como num lampejo, penso no pé de manacá, coberto de botões, prestes a abrirem-se em belas flores, será que no amanhecer, com a geada que se prenuncia eles ainda estarão lá?
Levanto, espreito pela janela o pé de manacá, sinto uma dor profunda ao ver os movimentos consistentes da bela árvore, sei que é contra sua vontade, pois são provocados pelo vento gélido cada vez mais forte, arrebatando seus galhos em um bailado forçado.
Caminho  pela casa no escuro, um silêncio assustador me rodeia, pensamentos desconexos vão e vem, é como se nesse momento eu perdesse totalmente o controle deles.
Na ponta dos pés, para não fazer barulho, volto para cama, deslizo delicadamente para debaixo das cobertas. Acho que peguei logo no sono, não lembro. O despertador me chamou antes de clarear o dia, me dirijo até o quarto dos meus pequenos, dormem um sono profundo, o verdadeiro sono dos anjos, mas fazer o que, João Pedro precisa levantar para ir à escola, carinhosamente o chamei, fui até a cozinha trazer-lhe um copo d'água para tomar seu remédio, o vento continuava forte, ajeitei as cobertas do Renato, dei-lhe um beijo, depois que ele saiu, voltei a deitar-me mais um pouco, afinal eu só tinha compromisso mais tarde.
Mas o sono não voltou, eu estava por demais curiosa para ver o pé de manacá, ver se ele tinha sobrevivido a forte ventania, que o castigou por toda noite.
Levantei-me, meu marido também, o vento ainda insistia, apesar do sol já ter nascido, depois de me agasalhar fui ver o manacá, continuava lá imponente e cheio de botões.
E assim foi o resto do dia, o manacá sobreviveu a ventania, o sol ocupou seu lugar, e onde o vento não batia, ele conseguiu cumprir sua missão de transmitir calor.
E assim nós deveríamos nos comportar, mesmo que as dores nos assolem e nos façam sofrer, sejamos como o manacá, que mesmo sofrendo insistiu em manter-se ereto, garboso e cheio de botões, embelezando nosso jardim, façamos como o sol, que mesmo sendo o astro rei, se escondeu por alguns momentos para dar lugar ao vento, para que esse também se sobressaísse, e mesmo assim não perdeu seu brilho resplandecente.
Ninguém é tão sofredor que não possa aliviar o sofrimento alheio, ninguém é tão altivo que não possa em algum momento ceder seu lugar para  que outro possa brilhar. Que tem humildade e benevolência com seu semelhante não precisa esforçar-se para brilhar, pois quem assim o faz é porque tem luz própria.

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